sábado, 10 de abril de 2010

Alfabeto Manual e Datilologia

O Alfabeto Manual é um tipo de sistema manual de representação quer simbólica, quer icônica, das letras e da ortografia dos alfabetos das línguas orais. Em todo o país o alfabeto é o mesmo. É formado por uma série de configurações de mão que correspondem às letras e números da língua escrita. O Alfabeto manual é pouco utilizado pelos surdos, principalmente os que têm pouco domínio sobre a língua escrita.

A Datilologia é a arte de digitação, ou soletração do Alfabeto Manual. A datilologia, assim como a ortografia, precisa ser aprendida e treinada.
É utilizada para:
  • traduzir nomes próprios, de pessoas, lugares, palavras que ainda não possuem sinal, ou identificar coisas novas, ambientes e pessoas que ainda não tiveram contato com a Libras;
  • auxiliar na intercomunicação entre duas línguas diferentes, explicando o significado de um sinal a um ouvinte ou ainda explicar ao surdo a forma escrita de uma palavra em língua portuguesa.

O alfabeto manual, apesar de configurar-se como empréstimo linguístico, é um instrumento de grande valia para o processo de aquisição do português como L2, sendo utilizado como um meio para verificação, questionamento ou veiculação da ortografia da língua oral.




Um Paralelo entre a Libras e o Português



Pontos em Comum:

a) Ambas são sistemas de comunicação.
b) São línguas naturais desenvolvidas por usuários nativos.
c) São constituídas de níveis fonológicos (quirológicos) sintáticos e semânticos.
    Fonológicos = Fonema
    Querenas = Grego: Kirós = Mãos
    (Estudo dos movimentos das mãos)
d) Apresentam arbitrariedade ou convencionalidade.
    Ex: LS - ver é feito com “V”
                errar é feito com “P”
    Ex: LP - cachorro não se chama “AU AU”
                por que janela se chama “janela”?
e) São dotadas de dupla articulação. Duas unidades mínimas sem valor contrastivo
    podem criar uma unidade mínima de valor contrastivo.
    Ex: VA (Sem acento não tem significado)
         CA (Sem acento não tem significado)
         VA + CA = VACA (valor com significado)
f) Apresentam variantes regionais (LP = idiossincrasia, LS = tautologia).
    Ex: LP - mandioca = macaxeira = aipim
          LS - branco, azul, verde
g) Ambas são estruturais e funcionais.
h) Os usuários nativos de Libras adquirem a linguagem tão rapidamente quanto as
    crianças brasileiras adquirem a Língua Portuguesa.
i) Palavras (sinais) que têm dois ou mais sentidos diferentes (polissemia).
    Ex: LP - manga (fruta, pasto, de camisa)
          LS - não-pode, não dá, ocupado.
                doce, açúcar, sobremesa.


Algumas Diferenças Básicas Próprias da Libras:

a) Sinais correspondentes a uma configuração de mão (letras ou números) oriundos
    do Alfabeto Manual.
    Ex: “C” = depressa, quente, cunhado, tio
          “4” = acusar, quarta-feira, conhecer
          “Y” = bobo, triste, sofrer, vaca
b) Sinais simples pela mão direita.
    Ex: amigo, avião, sábado
c) Sinais compostos de dois ou mais sinais.
    Ex: faqueiro = caixa + guardar + faca + garfo + colher
          piloto = homem + dirigir + avião
          mãe = mulher + bênção
d) Sinais que podem ter dois ou mais movimentos diferentes realizados
    simultaneamente ou movimento de uma das mãos sobre outra parte
    do corpo parado.
    Ex: cadeira, nervoso, papel, chocolate
e) Sinais que podem ter dois movimentos iguais realizados ao mesmo tempo.
    Ex: empregada, diferente, namorar, feriado
f) Sinais que não apresentam movimento de mãos. Só da face.
    Ex: roubo, ato sexual
g) Sinais com sentidos diferentes, mas mantém a mesma forma em Português.
    Ex: FALTAR/FALTA:
          Ausência - Ele faltou à aula.
          Insuficiência - Está faltando arroz.
          Falta em esporte - Zico cobrou a falta com perfeição.
          APAGAR:
          Desligar - Por favor, apague a luz.
          Limpar - Apagar o quadro negro.
          Fechar - Ela apagou o gás.
h) Frases formadas a partir de um único sinal.
    Ex: Estou com dor de cabeça. LS = dor-de-cabeça
          Quantos anos você tem? LS = idade
i) Sinais que com uma mesma representação manual podem ter
   significados diferentes quando associados à expressão facial diferente.
   Ex: não-pode # cair-do-cavalo # ocupado
         egoísta # problema meu # deixa comigo
j) Expressões idiomáticas da LP que não encontram sinal correspondente
   em Língua de Sinais.
  Ex: “cair de gaiato”, “pernas, para que te quero”, “dando sopa”, “vai tomar
  banho!”, “chá de cadeira”, “chorar o leite derramado”, “isso são outros
  quinhentos”, “entrar pelo cano”.

Verbos de Ligação

Chamados também de verbos auxiliares, e ao contrário dos verbos significativos, sos verbos de ligação são responsáveis por fazerem a ligação do sujeito com o predicado e normalmente não têm o sentido principal da frase, denotando não a ação, mas o estado, a qualidade, a condição ou a situação do sujeito. Por isso, na Libras são geralmente omitidos da frase. 

Principais verbos de ligação:
SER
ESTAR
FICAR
TER
HAVER
CONTINUAR
PERMANECER
PARECER
ACHAR
ENCONTRAR
ANDAR
TORNAR-SE

Nem sempre os verbos acima serão de ligação. Para fazermos uma correta análise, é preciso verificar o contexto em que estes verbos estão inseridos. Vamos usar como exemplo os verbos ANDAR e CONTINUAR:

Exemplo 1 (ANDAR)
O homem anda depressa.
Andar neste contexto significa modo, maneira que o homem anda. É um verbo de ação (portanto não poderá ser de ligação). Aqui andar é verbo intransitivo.

O homem anda preocupado.
Nesse caso andar indica o estado em que o homem se encontra. Logo, trata-se de um verbo de ligação.

Exemplo 2 (CONTINUAR)
Ela continua feliz. Indica estado. Verbo de ligação.
Ela continua sua tarefa. Indica ação. Verbo transitivo direto.

Sistemas de Classifcação

Sistemas de Classificação são estruturas complexas e ainda muito pouco exploradas pelos ouvintes intérpretes porque dependem de elementos próprios da cultura surda, os quais não são meramente aprendidos a partir da imitação, como acontece com a maioria dos sinais. Por isso os ouvintes têm mais dificuldade em reproduzi-los do que os surdos que o fazem naturalmente ancorados pela sua base cultural natural.
Enfatizando essa idéia de complexidade, reitero ser este estudo uma mera base estrutural que nos ajudará a compreender um pouco deste vasto campo de estudo composto pelos Sistemas de Classificação. Para isto, é válido lembrar que existem algumas regras que permeiam esta ferramenta valiosíssima da Língua de Sinais. Por exemplo, as (C.M.) utilizadas para cada objeto ou ação representada.

“D” para pessoa
“5” para animal
“C” para objetos cilíndricos
“1” para formas geométricas
“B” para superfícies planas
“Y” para objetos multiformes e irregulares
“G” para objetos finos e longos

Sistemas de Classificação são conjuntos de elementos visuais, entre os quais se podem encontrar ou definir relações para a visualização da imagem mental. Essa comunicação não-verbal, a icônica, não fala apenas no plano consciente, mas, consegue chegar às profundezas do inconsciente.
Baseando-se em sistemas de classificação, os surdos visualizam uma imagem mental configurando com as mãos, e retratam a imagem para manter uma comunicação com mais clareza de detalhes. Os traços essenciais desses sistemas com movimentos e ritmos de imagens, articulados num ícone apresentam relações análogas para a comunicação, que é formada a partir de cortes, descrição de um objeto, pedaço de uma cena ou ação, e as relações de umas com as outras, formando um painel de mosaicos com fluência e ritmo.
Não há forma sem significado, nem significado sem forma. Essa semântica, esse significado peculiar é que retrata tanto a ação como a descrição em estruturas funcionais. Porém o significado de uma forma depende do repertório, e este é o significado real da linguagem. Mas, esse repertório varia de pessoa para pessoa, dependendo da vivência e da cultura de cada um, e a cultura depende da faixa sócio-econômica em que se situa a pessoa, pois a formação e a informação dependem de muitos outros fatores.

Os Sistemas de Classificação nos permite explicar com clareza, frases, palavras, coisas e situações que não possuem sinal próprio.

A divisão que apresentamos a seguir é meramente didática, pois os sistemas se interligam e se intra-relacionam intrinsecamente. Essa tomada de imagens segue certa sequência que não se pode traduzir palavra por palavra, pois a estrutura da Língua Portuguesa é diferente da Língua de Sinais.

a) Sistema Descritivo: Toda e qualquer descrição, poderá valer-se do uso de figuras geométricas. Esta descrição deverá expor minuciosamente os elementos visuais (forma, tamanho, textura e se precisar, a cor) e traçar a figura geométrica do desenho do objeto.
b) Sistema Específico: Este sistema deve retratar características especiais, com explicações minuciosas, esmiuçar as particularidades das partes do corpo dos seres animais. Ex: forma e tamanho dos pelos(comprido, curto arrepiado).
c) Sistema Funcional: Deverá reproduzir a imagem da ação, a maneira como um corpo ou parte do corpo age e atua. Esse movimento, configurado com as mãos, deverá retratar o comportamento e/ou funcionamento de qualquer corpo. Ex: mordida de animais, movimento dos olhos, trejeitos.
d) Sistema de Locação: Deverá reproduzir a imagem de como um corpo se relaciona num determinado lugar, definindo posições, localizações e expressões dessa correspondência. Ex: sobre a mesa, no ar, no céu, etc.
e) Sistema Instrumental: Deverá reproduzir a imagem de como se serve, se utiliza alguma coisa. Ex: vassoura varrendo, gaveta abrindo, abrindo tampa de garrafa ou vidros, ferramentas.
f) Sistema de Pluralização: Esse sistema classifica números determinados ou indeterminados de alguma coisa, pessoa ou animal. Ex: pessoa(s) ou animal(is) indo e vindo.
g) Sistema de Elementos da Natureza: Reproduz a imagem de elementos que não são sólidos. Ex: o ar, a fumaça, a água líquida, a chuva, o fogo, a luz etc.

Referências Bibliográficas: A Imagem do Pensamento - Editora Escala
                                           INES

SignWriting

É um sistema de escrita visual direta de sinais, desenvolvido pela norte-americana Valerie Sutton (1998), e sistematicamente descrito e desenvolvido em Capovilla e Sutton (2001). Estudiosa da dança, Sutton criou um sistema de notação de coreografias conhecido como DanceWriting. Na década de 70 começou a fazer experiências no registro da fascinante Língua de Sinais. Hoje, SignWriting é usado em todo o mundo. Há também um programa de computador chamado SignWriter (Gleaves & Sutton, 1995), especialmente delineado para esta escrita. No Brasil, SignWriting vem sendo usado em cursos de informática e língua de sinais para crianças surdas (Stampf 1998), escrever estórias de contos infantis em LIBRAS (Strobel 1995), para documentar a gramática da LIBRAS (Quadros 1999), e para documentar os sinais da LIBRAS no Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilingue de LIBRAS (Capovilla, Raphael e Luz, 2001b e 2001c).
Os sistemas de escrita alfabéticos representam os fonemas de que se compõem as palavras, enquanto que o SignWriting representa os quiremas de que se compõem os sinais. Ele emprega diferentes símbolos para representar os diversos componentes da LIBRAS tais como as configurações de mão; sua localização no espaço, e sua orientação, os tipos formas, frequências e dimensões dos movimentos, expressões faciais e corporais. Uma descrição detalhada pode ser encontrada no Dicionário Enciclopédico Trilingue de LIBRAS, CAPOVILLA Fernando & RAPHAEL Walkíria, ou no endereço www.signwriting.org.

Diferentemente das línguas orais, que podem ser registradas na modalidade escrita, as línguas sinalizadas, historicamente, eram e ainda são, até hoje, na maioria das vezes, registradas fielmente, com o recurso de vídeo.
A escrita de sinais, Sign Writing, foi criada para que, os registros das línguas sinalizadas não dependessem das traduções das línguas orais, que possuem outras estruturas gramaticais e culturais, ocasionando assim distorções. Signwriting é um sistema rico que mostra a forma das línguas de sinais.
 
Uma rápida cronologia sobre Sign Writing:
1974 Sign Writing foi criada por Valerie Sutton. Ela criou um sistema para escrever danças e despertou a curiosidade dos pesquisadores de língua de sinais. Foi na Dinamarca que foi registrada a criação de um sistema de escrita de LS.
1977 Houve o primeiro workshop sobre Sign Writing.
1978 Foram editadas as primeiras lições em vídeo.
1979 Valerie Sutton e a equipe do Instituto Técnico Nacional para Surdos de Rochester - NY fizeram alguns livretos, em que usaram ilustrações em Sign Writing.
1980 Valerie Sutton apresentou uma forma de se analisar a LS, sem passar pela tradução da língua falada. A escrita de sinais começou a se desenvolver a partir de um sistema escrito a mão livre e depois passou a ser escrito pelo computador.
1996 A PUC do RS, em Porto Alegre, formou um grupo de trabalho para pesquisas de SignWriting. Participa desse grupo, Marianne Stumpf, como colaboradora e autora da adaptação do Hino Nacional. A evolução do Sign Writing apresenta características da evolução da escrita. Um mesmo sinal pode ser produzido de formas diferentes. Há variações de sinais de escola para escola, entre comunidades de surdos e entre estados.


A interpretação do Hino Nacional foi feita com sinais usados em São Paulo, mais especificamente na Escola Especial para Crianças Surdas.

Abaixo, segue parte do registro do Hino Nacional em Sign Writing.

 


Fonte do Hino: TAMBÉM SOMOS BRASILEIROS
                        Escola Especial para Crianças Surdas – FRSP 2000

Tradução

Entende-se por tradução a passagem de um texto escrito de uma língua para outra. Quando o texto for oral, diz-se que há interpretação. A interpretação é um tipo de tradução. Mas há nessas atividades diferenças fundamentais. No trabalho o tradutor dispõe de tempo para compreender o texto a ser traduzido, utilizando, se necessário, estratégias como glossário, notas de rodapé, comentários, etc. Enquanto que ao intérprete cabe ouvir, entender, assimilar, reproduzir. Ele necessita de boa memória e raciocínio rápidos. A atividade do intérprete implica forçosamente improvisação, limitação de tempo, rapidez de ritmo, exigências excepcionais de memória, espera de reação imediata. Por isso é importante que o intérprete da Língua de Sinais conheça previamente o texto da língua-fonte com a finalidade de realizar um trabalho fiel possível.

Resumindo: Língua oral (Português) para Língua de Sinais = Interpretação
                    Língua de Sinais para Língua oral (Português) = Tradução

INTRODUÇÃO
Traduzir de sinais para voz é, provavelmente, o maior desafio para os intérpretes das Línguas de Sinais. São muitos os conhecimentos e domínios necessários para que aconteça uma boa, coerente e real tradução. Em diversos países temos muitos intérpretes leitores de sinais, porém, não tradutores. Produzir sinais (no geral) é muito mais fácil do que ler sinais, até mesmo porque nós (ouvintes) temos o hábito de ouvir uma língua e não de vê-la.

Diante de uma grande platéia ouvinte (não sinalizadora), maior será a admiração por ver o intérprete sinalizando do que traduzindo. A crítica ao intérprete que atua como sinalizador poderá vir do público surdo presente – porém, em geral, os surdos são (não deveriam ser) bem mais passivos ou até mesmo flexíveis. A platéia ouvinte, nesse caso, por ser leiga, não tem como criticar.

Entretanto, o contrário é muito diferente e bem mais complexo. Os surdos estão em situação acrítica durante o processo de tradução, e os ouvintes não. Por estarem totalmente conectados e até dependentes da fala do tradutor-intérprete, eles se posicionam de forma ativa em relação ao orador.

A corporeidade vocal (ou não) será forte determinante para a interação (ou não) com essa platéia, bem como sobre a visão que terão desse indivíduo que está sendo traduzido.

Atualmente (e de forma crescente), os surdos têm protagonizado mais e mais sua própria história, e a demanda por bons intérpretes-tradutores tem aumentado dia a dia. Como sujeitos de sua história, os surdos têm se apresentado com maior frequência como palestrantes em congressos (de surdos ou não), escolas, empresas etc., e os ouvintes tradutores têm sido com mais incidência co-responsáveis para eliminar as barreiras de comunicação e romper paradigmas sociais sobre quem são esses cidadãos surdos.

Mais do que apoio técnico (oralidade, letramento, inclusão, protetização etc.) que os surdos têm recebido da comunidade ouvinte durante anos, eles têm solicitado, mais e mais, apoio humano por meio de tradutores-intérpretes que, literalmente, atuam como porta-vozes de suas falas e/ou embaixadores orais de suas idéias junto à comunidade ouvinte leiga.

Cada vez mais, como direito à cidadania plena e protagonismo de sua própria história, a comunidade surda tem discursado “ao vivo e em cores”, ante aos olhos dos que, voluntária ou involuntariamente, não teriam acesso às suas “falas”, se não fosse pela mediação de um intérprete-tradutor. Esses intérpretes têm apoiado os surdos na sua inclusão plena e igualdade de direitos junto à sociedade majoritária.

Toda a tecnologia e técnicas para desenvolver a oralidade dos surdos jamais poderão substituir a necessidade e o direito que os surdos têm de se expressar em sua própria língua materna (no caso, a Libras) e serem compreendidos por todos, acima de tudo, pela sociedade majoritária que não sabe Língua de Sinais.

O surdo não tem obrigação de narrar-se em Libras como se fosse um ouvinte, com a estrutura gramatical do português. O seu discurso em Libras é o seu próprio ato de pensar, que é muito mais que um acontecimento cerebral. É um ato que ocorre a um montante de símbolos (icônicos ou arbitrários), de pensamento imagético e, consequentemente, imagens visuais, experiências “auditivas”, gustativas, táteis, olfativas, sinestésicas e proprioceptivas que estão “transitando” neste discurso; os objetos em experiência sobre os quais os surdos imprimiram significado – sua cosmovisão.

Dessa forma, os surdos atuarão com uma cidadania mais participativa e igualitária, valendo-se dos seus direitos não somente de pertencer, mas de ser, de tomar decisões, da autonomia, de celebração das diferenças, da valorização da diversidade humana, do aprendizado cooperativo, da equiparação de oportunidades, da solidariedade humana, da independência, do "empowerment", da autodeterminação, da rejeição zero e da cidadania plena com qualidade de vida.

Como vemos, para a grande maioria dos surdos, o papel do (bom) intérprete-tradutor é fundamental (em alguns casos indispensáveis) para que o indivíduo surdo seja realmente o principal protagonista de sua própria história.

PRELIMINARES PARA A (BOA) TRADUÇÃO
A tradução LIBRAS – Língua Portuguesa é muito mais que apenas um processo de recepção/transmissão de uma língua para outra. O intérprete-tradutor é (ao menos deveria ser) um participante ativo nesse setting de comunicação. Seu amplo conhecimento social e linguístico influenciará imensamente na qualidade dessa tradução. Como uma ponte entre duas culturas, ele precisa de grande conhecimento teórico-prático das culturas envolvidas nessa interação linguística.

São quatro (4) atividades exigidas na tradução:
1. VER em uma língua
2. Mas não somente VER, mas VER e COMPREENDER
3. Não somente FALAR, mas falar e se FAZER COMPREENDER
4. FALAR na outra

TRADUZINDO SIGNIFICADOS
Podemos realizar o que chamamos de uma boa leitura de sinais (dos significantes), uma vez que a Língua de Sinais em si mesma pode vir de nosso léxico mental já memorizado, entretanto, os significados linguísticos emergem muito mais de um conhecimento não-verbal aliado a esse conhecimento formal.

Traduzir é muito mais do que enviar falas de A para B. Recebemos informações que são (re)constructos de idéias de A e as convertemos em nossa própria representação mental para B – a cosmovisão do outro de encontrar com nossa particular cosmovisão, que, ali, se fundem e se respeitam: é a própria capacidade de autopoiesis do intérprete. Linguagem e conceitos são inseparáveis.

Traduzir é o ato de entendermos as intenções, significados, fenômenos paralinguísticos, etc. para expressá-los em nossas próprias palavras. É passar os sentidos desse discurso e não palavras isoladas desprovidas de seus significados contextuais. É compreender esses fenômenos extras ou paralinguísticos, além dos complementos cognitivos adicionados a esse discurso.

Traduzir sinais orais, acima de tudo, evidencia que necessitamos de muitos conhecimentos extralinguísticos na tarefa de entender essas “falas” repletas de informações não-verbais, muito mais do que fazer a transposição de uma percepção visual para uma expressão verbal, é, também, a percepção do discurso não-sinalizado do outro.

O entendimento humano de sentenças isoladas evoca apenas parte do conhecimento de quem está ouvindo. “Embebido” do contexto, os eventos discursivos evocam muito mais nossos conhecimentos internalizados.

Enfim, essa percepção não-verbal, aliada à memória não-verbal do intérprete-tradutor e da platéia, não é somente a base de uma boa tradução, mas a chave do entendimento do como adquirir conhecimento e colocar luz sobre a natureza dos pensamentos e o porquê da fala do sinalizador.

TIPOS DE TRADUÇÃO
Tradução Espontânea: é a própria performance do sinalizador, improvisada e sem preparação prévia. O intérprete-tradutor não teve tempo algum para ver o texto ou a “fala” do sinalizador. Alguns exemplos disso são palestras não programadas, consultas médicas, entrevista para emprego, situações jurídicas, orientações e procedimentos em uma empresa etc. (inclusive, nessas situações, o intérprete executa função dupla e simultânea, o que torna tudo muito mais difícil).
Somente a experiência e a prática é que facilitarão cada vez mais a atuação como intérprete-tradutor nessas situações específicas, uma vez que não há como prever o que acontecerá em cada caso.
Importante: em situações judiciais, médicas, psicológicas, anamneses, entrevistas para emprego, provas e outras semelhantes, a má tradução influenciará profundamente na compreensão e no andamento dos processos.

Tradução Fixa: são traduções de textos ou “falas” já conhecidas como a oração do Pai Nosso, textos escritos conhecidos, poesias da cultura ouvinte adaptadas para Libras, textos do Estatuto dos Direitos Humanos, Estatuto dos Direitos da Criança, leis, documentos oficiais, atas, peças teatrais com textos de falas decoradas etc. Nessas situações, provavelmente, o intérprete-tradutor terá in loco o material a ser traduzido.
Entretanto, cuidado: ainda que o texto seja o mesmo, cada sinalizador imprimirá seu registro linguístico personalizado, seu ritmo, sua poesia, sua personalidade, inclusive podendo ser diferente em comparação à última vez em que ele mesmo sinalizou esse mesmo texto – dificilmente falamos a mesma coisa da mesma forma duas vezes!

Tradução Preparada: é a situação considerada ideal para uma boa tradução porque o intérprete terá condições de se preparar com antecedência. A quantidade dessa preparação varia de acordo com o que cada situação requer, podendo ser breve ou extensa. Veja a seguir alguns exemplos em que a preparação se faz importante.
Defesas de teses, apresentação de TCCs, monografias, palestras científicas etc. devem ser lidas e estudadas com muita antecedência.
Apresentações de peças teatrais: os tradutores devem participar de todos os ensaios porque serão “co-atores” durante toda a encenação.
Palestrantes de cidades diferentes das cidades dos tradutores, ainda que enviem textos com antecedência, devem estudar juntos, pois há sinais específicos que são diferentes para cada região do país

É importante enfatizar que o intérprete-tradutor deve estar aberto e preparado para mudanças espontâneas do sinalizador, mesmo dentro da proposta tradução preparada, tais como: ilustrações que surgem na hora, pequenas dramatizações, novas anáforas, acréscimo de novas idéias, sinais, personagens, linha de pensamento, novas ênfases e entonações etc., além do fator nervosismo do palestrante, que também poderá alterar a sua “fala”.

ANTECIPANDO O TIPO DE AUDIÊNCIA
Outra dimensão a ser reconhecida pelo tradutor-intérprete é o número de participantes e o tipo de atividade comunicativa necessária para cada audiência específica: se a tradução será feita um a um, em grupos pequenos, médios ou grandes. Cada setting determinará a forma de traduzir, de se posicionar fisicamente e os aparatos necessários para que a comunicação aconteça de forma excelente e bem contextualizada – o uso (ou não) de microfones, de caixas de som potentes (ou não), de “contra-intérpretes” (preferencialmente surdos) ou não, e até mesmo do apoio de outros intérpretes.



RESUMO DOS ASPECTOS MAIS IMPORTANTES PARA UMA BOA TRADUÇÃO:
1. Conhecimento das línguas de origem e destino.
2. Conhecimento Social de ambas as culturas (ouvinte e surda).
3. Qualidade de voz, articulação e entonação.
4. Contato visual.
5. Lag-time (tempo de espera).
6. Vínculo, convivência ou relação de confiança com o surdo sinalizador.
7. Adequação do discurso / sinalizador / público destino


Referencial Bibliográfico: INES - Fórum 13 (2006)

Modalidades da Libras

A comunicação dos surdos permeia basicamente em três estágios:

a) Língua de Sinais, que se divide em Formal e Informal,
b) Sistemas de Classificação,
c) Português Sinalizado ou Português com Sinais.

Estes são níveis em que os surdos utilizam a Língua de Sinais de maneira mais “pobre” e/ou mais “rica” do vocabulário da sua própria língua, da mesma maneira que na língua nacional existe o vocabulário popular (coloquial) e o erudito.

a1) A Língua de Sinais Formal utiliza a estrutura da Língua de Sinais, que é a imagem do pensamento, porém, fiel ao português, ou seja, o sinal é fiel à palavra.

a2) A Língua de Sinais Nativa ou Informal (não confundir com dialetos, mímica, gestos, pantomima) utiliza a estrutura da Língua de Sinais, ou seja, a colocação do objeto sem o artigo e a preposição, e não é fiel ao português, ou seja, o sinal apresentado é composto pela visualização da imagem mental da coisa, pessoa, animal ou situação a ser descrita, usando expressões próprias da língua como, por exemplo, os Classificadores. (esta é a dificuldade maior com a estrutura da Língua Portuguesa).
A maioria dos surdos utiliza a Língua de Sinais informal na comunicação. Podemos afirmar que, é muito difícil para o surdo, que só utiliza a Língua de Sinais informal (nativa), aprender a Língua Portuguesa. Nestes casos, é válida a prática da Língua de Sinais Formal, mesmo incorrendo no Bimodalismo, ou Português Sinalizado, para obter um melhor desempenho com a Língua Portuguesa.

b) Sistemas de Classificação (tópico já abordado anteriormente)

c1) O Português Sinalizado é uma modalidade de comunicação que foi bastante utilizada na educação de surdos durante a era da Filosofia de Educação da Comunicação Total, amplamente difundida na década de 70. Essa prática recebe também o nome de ‘Bimodalismo’ porque usa os sinais dispostos na sintaxe e semântica da Língua Portuguesa. Isto se dá traduzindo literalmente cada palavra do português pelo seu sinal correspondente em LSB. Esta prática fere profundamente as regras semânticas e sintáticas da Língua de Sinais, que usada desta forma, perde sua identidade tornando sua comunicação ineficiente. O objetivo era facilitar a comunicação e a aquisição da linguagem pela criança surda e, consequentemente, alcançar um melhor desempenho na leitura e na escrita.

Embora, por princípio, a Comunicação Total apoiasse o uso simultâneo da Língua de Sinais com a língua falada, na prática, tal conciliação nunca foi e nem poderia ser efetivamente possível devido à natureza extremamente distinta da Língua de Sinais com sua morfologia e sintaxe simultânea e espacial e, logo, à descontinuidade entre ela e a língua falada pela impossibilidade de preservar as estruturas das duas línguas ao mesmo tempo, além da Língua Portuguesa sinalizada constituir-se num sistema artificial para o surdo.

É difícil para as pessoas surdas entenderem a mensagem do conteúdo em situações mais complexas, como o ensino do conteúdo, ele confronta duas modalidades desorganizando o entendimento. A tradução fragmentada congela as estruturas da LSB, privando-a de suas representações espaciais – que incluem movimento e direção – responsáveis pela concordância e pelas relações sintáticas, entre outros aspectos linguísticos, geradores de sentido, e, ainda, despreza as diferenças estruturais entre a língua-fonte e a língua-alvo. Além disso, essa estratégia não dá conta dos Classificadores, constituintes da LSB, que, além de descreverem objetos, descrevem ações no espaço.

A naturalidade com que muitos surdos traduzem palavra por palavra da LP para a LSB pode ser explicada como resultado da prática de interpretação estanque e descontextualizada a qual foram e têm sido submetidos nos métodos da Comunicação Total que preconizam o Português Sinalizado como técnica importante para o acesso à língua-alvo para os surdos. Nessa abordagem, a LSB não passa de trampolim para se chegar à LP, é apenas um instrumento para o aprendizado da LP. Pouco importa a estrutura da LSB, pois, na Comunicação Total, a LS é vista como um recurso a mais, uma “linguagem” pobre e simplificada e não uma língua com características próprias e especificidades.

c2) O Português Com Sinais é muito parecido com o Português Sinalizado, porém, com as seguintes diferenças: em vez de basear-se na estrutura do português, usa a base escrita da língua, o que faz com que haja variações de concordância e flexões que são digitadas. Isto ocorre também com as preposições, artigos, conjunções e outros elementos que não encontram correspondência na Libras.

O PIDGIN nasce da utilização de palavras de uma língua com a estrutura de outra língua. Quando estão em contato social, o pidgin surge do intercâmbio de uma língua com outra. Portanto, podemos afirmar que o Português Sinalizado e o Português Com Sinais são exemplos de PIDGIN.

Referencial Bibliográfico: Cappovilla, Quadros, Britto, Imagem do Pensamento - Editora Escala